Aprendizagem e Desenvolvimento Cognitivo: Tudo Sobre

Psicologia cognitiva e os conceitos de aprendizagem e memória

O aprendizado é o resultado da aprendizagem, e corresponde à aquisição de novas informações ou conhecimentos. Já a memória se refere à retenção das informações aprendidas, ou seja, sua posse e assimilação.



A psicologia cognitiva tem procurado estudar alguns dos processos mais básicos ligados ao funcionamento humano. De fato, o objetivo é compreender a cognição humana, ou seja, entender o que ocorre durante transição existente entre o estímulo cognitivo e a resposta.

Acredita-se de que o nascimento da psicologia cognitiva se deu em 1956, quando um congresso realizado no MIT (Massachusetts Institute of Technology) reuniu vários estudiosos da área cognitiva com o intuito de apresentar um conjunto de fenômenos.

O primeiro estudo sistemático sobre a memória humana foi relatado em 1885. Logo, muito antes da existência da psicologia cognitiva já havia o desejo de descobrir o funcionamento da memória e seus limites, assim, nesse contexto, o interesse tem sido voltado particularmente para o estudo das formas de melhorar a capacidade de memorização das pessoas, tendo em vista que esse potencial possui limites.

Aprendizagem e sistema nervoso

Ao nascer, o ser humano apresenta algumas estruturas já prontas e definidas, como a cor dos olhos, do cabelo e o sexo. Porém, nessa fase, algumas estruturas ainda estão se desenvolvendo, como o sistema nervoso, composto por um conjunto de órgãos que têm em comum a função de integrar e regular o funcionamento do corpo. Esse processo é modificado por meio da aprendizagem e do conhecimento.

Os anos iniciais da vida do indivíduo são cruciais para o desenvolvimento do córtex cerebral, substância cinzenta que reveste o cérebro, presente desde o nascimento do indivíduo, porém, de forma rudimentar. Portanto, é importante oferecer uma boa educação e hábitos saudáveis para a criança, pois certamente isso irá contribuir para o bom desenvolvimento de certas estruturas do sistema nervoso.

Na medida em que o indivíduo aprende e adquire novos conhecimentos, seu sistema nervoso sofre alterações. As experiências não são apenas armazenadas, já que elas mudam a percepção do indivíduo, seu comportamento, modo de pensar e planejar, além de transformar fisicamente a estrutura do sistema nervoso. Assim, se, por exemplo, uma pessoa lê bastante e obtém muito conhecimento, ela poderá passar a apresentar um comportamento diferenciado de quando não tinha o hábito da leitura.

Formas de aprendizagem

A aprendizagem é dividida em quatro formas básicas.

Aprendizagem perceptiva

A aprendizagem perceptiva envolve o córtex sensorial, recebendo informações táteis do corpo. A percepção pode ser considerada como um conjunto de processos pelos quais o indivíduo mantém contato com o ambiente. O estudo da aprendizagem perceptiva é fundamental para a compreensão das experiências vivenciadas pelos seres humanos, pois a maneira de perceber o ambiente tem uma profunda ligação com a essência de cada indivíduo.

Aprendizagem estímulo-resposta

A aprendizagem estímulo-resposta também pode ser chamada de reflexo condicionado. Para exemplificar esse tipo de aprendizagem é possível citar o resultado da experiência de Pavlov com um cão. Nela, a visualização de um pedaço de carne sempre provocava uma salivação no animal. Logo, nesse caso, a carne atuava como estímulo para que o cachorro se manifestasse por meio da salivação.

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Numa segunda parte do experimento, era tocada uma campainha, e seu som gerava uma reação de orientação no cachorro. Ao ouvi-lo, o animal simplesmente olhava e virava a cabeça na tentativa de descobrir a origem daquele estímulo sonoro. Quando a campainha era tocada, e logo depois a carne era exibida ao cão, e essas duas ações eram repetidas algumas vezes, num dado momento, o simples tocar da campainha era suficiente para que o cão salivasse e preparasse seu trato digestivo para receber a carne. Assim, a campainha era um sinal de que a carne surgiria logo em seguida. Esse exemplo ilustra bem o que é a aprendizagem estímulo-resposta.

Aprendizagem motora

A aprendizagem motora é vinculada a habilidades motoras desenvolvidas nas mais variadas situações. A partir do momento em que, por exemplo, o indivíduo estuda um determinado instrumento musical, como o violino, ele passa a adquirir cada vez mais habilidades motoras necessárias para tocá-lo.

Esse tipo de aprendizagem também possui elo com a aprendizagem estímulo-resposta. Em outras palavras, quanto mais o indivíduo pratica, mais habilidoso ele se torna.

Orientação sensorial

A orientação sensorial está preponderantemente vinculada ao próprio senso de espaço e distância, e relacionada à aprendizagem motora. No basquete, por exemplo, o jogador precisa ter uma noção espacial e deduzir a qual distância ele deve arremessar a bola com o intuito de fazê-la cair na cesta.

Aprendizagem relacional

A aprendizagem relacional está vinculada à interação mantida com o meio ambiente. Ao visualizar uma maçã, o indivíduo poderá decidir de acordo com o estado da fruta, se ele irá ou não consumi-la. Às vezes, as pessoas erram, pois a maçã está azeda ou com seu interior apodrecido. Em outras ocasiões é possível acertar e comer uma fruta saborosa.

O ato de pegar a maçã e mordê-la são características de interações diretas com o ambiente. A interação com a fruta proporcionará ao indivíduo o aprendizado necessário para que ele saiba em quais condições a maçã estará propícia para o consumo. Logo, as próprias consequências das ações ensinam a observar e realizar ajustes de acordo com o ambiente.

O aprendizado, nesses casos, consiste exatamente em descobrir como estabelecer relações com o meio ambiente para que seja possível tirar conclusões vinculadas a essas interações.

A aprendizagem relacional estabelece a recuperação das memórias ligadas a eventos. Isso significa que, a partir do momento em que o indivíduo passa por determinada experiência ou a relaciona com algo, esse evento poderá acabar sendo recuperado pela memória todas as vezes em que ele se deparar com uma situação correlacionada. Por isso, a aprendizagem relacional é extremamente útil no que tange à consolidação da memória.

Os 4 estágios da aprendizagem

1) Incompetência subconsciente

Sempre que o indivíduo começa a aprender uma nova habilidade, ele entra em uma fase chamada de incompetência subconsciente. Essa etapa é caracterizada pelo fato de nem o subconsciente ter ideia do que ele está fazendo.

Um exemplo que ilustra bem essa fase ocorre quando alguém está começando a aprender a andar de bicicleta. Neste momento, o indivíduo não faz ideia do que é necessário para andar de bicicleta. Ele pode pensar sobre o equilíbrio e a velocidade de deslocamento, por exemplo. Porém, o fato é que ele só saberá realmente o que é necessário para manter o equilíbrio em uma bicicleta quando começar a movimentá-la.

2) Incompetência consciente

Nesse ponto, o indivíduo sai da fase de incompetência subconsciente e chega a de incompetência consciente, que é quando seu consciente tem noção de que ele não sabe muito sobre aquela habilidade, e precisa treiná-la mais.

3) Competência consciente

Ao começar a treinar, o indivíduo começa a ganhar competência consciente, e mesmo que ele ainda não seja o melhor do mundo ao executar aquela tarefa, ele já sabe o que está fazendo.

4) Competência subconsciente

Com muito treino é possível alcançar um estado elevado de compreensão de uma nova habilidade. Neste ponto, surge a fase de competência subconsciente, que é quando aquele comportamento se tornou um hábito natural para o indivíduo, a ponto dele realizá-lo de forma quase automática.

Como estimular a cognição

Estimular a cognição consiste em trabalhar as funções do cérebro relacionadas à percepção, sensação e resolução de conflitos e problemas. A estimulação do cérebro deve começar na infância e perdurar até o fim da vida. No entanto, na maioria dos casos esse processo é super valorizado apenas na infância, e ao chegar à vida adulta, muitos acabam deixando de realizar algumas atividades de aprimoramento das habilidades cognitivas.

A estimulação cognitiva pode ser realizada diariamente e de uma forma muito simples. Grande parte das pessoas está habituada a receber diversas informações prontas, deixando o estímulo cerebral em segundo plano. De qualquer modo, a estimulação cognitiva pode ocorrer através da realização de diversas atividades, como:

  • Leitura;
  • Jogos de palavras-cruzadas;
  • Sudoku;
  • Ouvir músicas em idiomas diferentes e tentar traduzi-las;
  • Efetuar contas sem o auxílio de calculadoras.

sudoku

O lado não tão bom da tecnologia

Hoje há uma tendência a não se utilizar o cérebro para realizar uma série de atividades, tornando as pessoas dependentes de outros dispositivos projetados para executar determinadas ações. Além disso, muitos indivíduos dedicam a maior parte de seu tempo em ações completamente fúteis e desnecessárias, comprometendo sua cognição.

O avanço tecnológico fez com que até mesmo informações básicas fossem disponibilizadas mais facilmente, como a notificação de datas de aniversário em redes sociais, e a agenda de compromissos anotada no celular. Desse modo, as pessoas acabam perdendo o hábito de memorizar eventos por livre e espontânea vontade, o que pode facilitar o esquecimento. Além disso, a possibilidade de escrever uma mensagem, em vez de digitá-la, também é uma forma de melhora da coordenação motora.

menino-no-celular

As facilidades da vida moderna podem otimizar o uso de nosso tempo, mas é fundamental que as pessoas não abandonem parte das atividades que estimulam a cognição, até mesmo visando a preservação de sua saúde mental, afinal, alguns simples exercícios mentais podem colaborar para a prevenção de problemas propensos a surgir conforme o avanço da idade. O ideal é que essa medida preventiva seja iniciada já na infância, ajudando a interromper a progressão da perda de memória.

Aprendi… não usei… esqueci

O fato de o indivíduo aprender determinada atividade, porém, não realizá-la nos dias e semanas seguintes, pode fazer com que aquela informação desapareça. Entretanto, essa consequência dependerá da maneira como aquele conhecimento foi armazenado na memória, já que existem memórias de curta e longa duração.

Dessa forma, o cérebro tem a característica de descartar informações que serão usadas apenas momentaneamente, assim, um número de telefone que precise ser discado apenas naquele momento é gravado em nossa memória de curta duração. Por outro lado, também é possível fazer com que o cérebro guarde informações para ser reutilizadas posteriormente.

Experimentos relacionados à aprendizagem

A característica temporal da aprendizagem

Em experiências realizadas em ratos recém-nascidos, ao ter um dos olhos tapados, alguns deles acabaram ficando cegos para sempre. Assim, a estimulação de determinados grupos de neurônios tem uma característica temporal. Logo, quem não aprende a ler até os 15 anos tende a ter mais dificuldade para fazê-lo posteriormente, já que o aprendizado se torna mais difícil devido à baixa reprodução de neurônios, que também já possuem menos capacidade de emitir prolongamentos para outros neurônios e realizar sinapses. Esse processo é mais prático até a adolescência.

Assim, a não estimulação dos neurônios na época certa interfere no processo de aprendizagem. Isso ocorre porque o metabolismo celular sofre mudanças cotidianas, e cada conjunto de um estágio metabólico leva ao seguinte. Assim, algumas dessas etapas podem não ser alcançadas.

Inteligente ou esforçado?

Em uma série de experimentos realizados com mais de 400 crianças, a pesquisadora Carol Dweck fez uma descoberta muito interessante. Ela dividiu as crianças em dois grupos e forneceu a elas testes de matemática bem simples. Depois do bom desempenho obtido pelas crianças, uma vez que os testes eram muito fáceis, a pesquisadora elogiou o resultado por meio de duas frases diferentes.

Para as crianças de um dos grupos, Dweck disse: “Parabéns, você deve ser muito inteligente.” E para as do outro grupo, ela disse: “Parabéns, você deve ter se esforçado muito para isso”. Logo, enquanto o primeiro grupo foi recompensado por sua inteligência, o segundo, foi valorizado por seu esforço.

Em seguida, a pesquisadora deu às crianças a possibilidade de escolher mais dois outros testes: um mais difícil e outro novamente bem fácil, muito parecido com aquele que havia sido concluído há pouco. E aqui o resultado: as crianças que foram recompensadas pela sua inteligência escolheram o teste mais fácil, já aquelas que haviam sido recompensadas pelo seu esforço, em sua maioria, optaram pelo teste mais difícil.

Esse resultado é incrível e se deve ao fato que, ao elogiar uma pessoa pela sua inteligência, ela desejará parecer inteligente, e para isso, ela evitará cometer erros, os quais poderão frustrá-la, e ela poderá pensar, que, na verdade, talvez ela não seja tão inteligente assim, afinal, ela foi incapaz de resolver aquela questão.

O problema apresentado se refere ao fato de que geralmente o medo de errar inibe o aprendizado. Carol Dweck fez variações desse experimento em sala de aula. Ela comprovou que, as crianças que eram constantemente recompensadas pelo seu esforço, melhoraram significativamente suas notas. Cabe observar que estas crianças incorporaram rapidamente a mentalidade de crescimento, e embutiram na cabeça que o “trabalho duro” é que tinha as levado ali, e mesmo que desconhecessem as respostas, talvez o ato de se esforçar um pouco mais, fosse o suficiente para encontrá-las. Isso fez toda a diferença.

Fui mal na prova denovo! Oh céus… Oh vida!

Em outro experimento, o cientista Jason Moser, da Universidade de Michigan, mapeou o cérebro de diversos indivíduos enquanto eles realizam alguns testes e acertavam e erravam as questões. Essa experiência recebeu o nome de Experimento Moser. Nela, o cientista conseguiu mapear o que acontece exatamente em nosso cérebro quando o indivíduo é acometido por uma frustração.

Ao errar algo, uma resposta involuntária de reação ao erro é disparada do Córtex Cingulado Anterior, uma área do cérebro responsável por monitorar comportamentos, antecipar recompensas e regular a atenção. Depois da reação de inconformismo, o ato de errar deve vir acompanhado de uma segunda resposta, que é a atenção ao erro. Assim, o indivíduo percebe que errou e analisa o resultado ruim.

Essas pesquisas provaram que, pessoas que aprendem mais rapidamente erram assim como todas as outras. No entanto, as primeiras prestam atenção ao erro e tentam aprender com ele. Enquanto isso, algumas pessoas entram em um ciclo de autonegação, evitando o erro como uma ameaça à suas crenças.

Algumas pessoas acreditam que nasceram com certa quantia de inteligência e que não podem fazer muito a respeito. Já outras acreditam que podem aprimorar qualquer habilidade, desde que invistam tempo e energia suficientes.

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