Memória: Como ela Funciona – Guia Definitivo

Tudo sobre a memória

O que é a memória?

A memória está relacionada à aquisição, consolidação e armazenamento de informações experimentadas. Trata-se de uma faculdade mental conhecida há muito tempo, até mesmo na mitologia grega há uma deusa chamada Mnemosine, que personifica a memória.



As memórias são redes de neurônios interligadas e distribuídas por conexões sinápticas, que por sua vez são moduladas pelas experiências vivencias pelo indivíduo.

Em que parte do cérebro ficam guardadas nossas memórias?

A memória não é necessariamente armazenada em uma área específica do cérebro, apesar deste ser subdivido em regiões. Na verdade, a visualização de imagens cria um processo associativo no interior do cérebro. Assim, cada indivíduo realiza associações subjetivas com base no significado que determinadas recordações lhe trazem.

Por exemplo, considere um indivíduo que, durante um dia qualquer de sua infância, tenha tido um contato prazeroso com um tipo específico de flor. A lembrança desse momento poderá ocorrer, por exemplo, através de uma memória olfativa. Assim, uma parte da recordação estará presente na região do cérebro correspondente às sensações como tato e olfato. Outra parte estará na região ligada à visão e audição, fazendo com que a pessoa se recorde do formato da flor ou até de um som que marcou aquele evento, como a buzina incessante de um carro. Os mecanismos e características da memória daquele dia estarão espalhados por todo o cérebro. Logo, para se lembrar daquele evento é necessário percorrer diferentes regiões do cérebro em busca de informações.

A memória é um elemento emocional

As pessoas possuem fragmentos de memória que são complementados com percepções emocionais. Assim, toda memória é associada a uma emoção, seja ela agradável ou não.

A criação de novas sinapses é reforçada quando há uma recompensa ou uma forte emoção envolvida com o aprendizado. Por isso, as pessoas tendem a se lembrar mais facilmente de situações nas quais foram bem sucedidas. Pela mesma razão, os momentos de medo ou estresse são mais memorizados.

Os fragmentos emocionais concernentes à memória estão distribuídos em diversos locais do cérebro, criando uma cadeia. Embora pareça contraditório, até mesmo a memorização de elementos ligados ao raciocínio, como uma fórmula matemática, dependem de vínculos emocionais. O aspecto emocional interfere na memorização de acordo com o prazer causado pelo estudo daquela disciplina. Se o estudo não tocar o estudante emocionalmente, ele terá mais dificuldade em se lembrar daquele conteúdo.

Como a memória funciona: construção e desconstrução das memórias

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A consolidação da memória exige que certas formações, como as estruturas do hipocampo e da amídala, estejam intactas. À medida que as percepções são captadas pelos nossos sentidos, as memórias se tornam mais abstratas, complexas, semânticas ou conceituais.

Os eventos passados são lembrados através de “gatilhos”, assim, a memória é engatilhada sempre que a pessoa entra em contato com algum evento emocional que desencadeie aquele processo de lembrança. Contudo, os acessos a essas memórias acabam modificando-as em virtude da mescla de sensações distintas.

Assim, as memórias dos eventos vivenciados são modificadas a cada nova recordação. Independentemente do tipo do evento, é impossível mantê-lo com as mesmas características. Dessa forma, se o indivíduo se recorda de um evento antigo, por exemplo, uma ida ao cinema, e posteriormente fixa na memória um evento semelhante e mais recente, como uma nova ida ao mesmo cinema, a recordação do primeiro evento tende a apresentar alguma mudança.

Como o tempo presente interfere no olhar do observador, seu estado emocional irá alterar o trajeto efetuado pelo cérebro durante o processo de montagem da recordação. Assim, se o indivíduo estiver se recordando de algo em um momento tranquilo, ele tende a desencadear pensamentos que mantenham essa mesma linha de tranquilidade. Por outro lado, caso ele se recorde de um evento num momento em que esteja com sua percepção emocional alterada, esses aspectos emocionais poderão influenciar em suas lembranças.

Dessa forma, as memórias dos eventos sofrem mudanças, e após alguns anos, essas alterações podem se tornar tão profundas, a ponto do indivíduo praticamente recriar aquela lembrança, inserindo elementos inexistentes com relação ao evento original. Cada recordação de um evento antigo irá gerar novas associações de fatos e elementos pertencentes ao momento presente. Assim, os mecanismos por trás memória não são estáticos.

O sistema cerebral também pode ser usado para desengatilhar determinadas memórias. Dessa maneira, o indivíduo pode desassociar alguns elementos desagradáveis vinculados a um momento específico.

Vale notar que todas essas análises são embasadas no atual conhecimento científico, e futuramente podem surgir outros elementos desconhecidos até o momento. Logo, o processo de construção e desconstrução da memória pode ser algo bem mais profundo do que atualmente se acredita.

Interpretação dos fatos

Por mais que as pessoas enxerguem a memória como algo estático, muitas delas se recordam de eventos que na verdade nunca ocorreram. Como a memória pode ser alterada, as lembranças são construídas também de acordo a interpretação dos fatos vivenciados.

Assim, cada indivíduo pode relatar um evento segundo seu registro interpretativo. Por exemplo, basta que, na infância, uma mãe brigue com seu filho uma única vez por ele ter derrubado um copo d’água, para que, quando adulto ele venha a distorcer o evento, imaginando que sua mãe brigava com ele o tempo todo. Na verdade, essa distorção pode ser resultante do trauma gerado por aquela única bronca. Do lado da mãe, é possível que esse evento tenha sido tão irrelevante, que ela nem ao menos se recorde do ocorrido.

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Como ter uma boa memória

1) Leia bastante

A melhor forma de se exercitar a memória é por meio da leitura. Em geral, pessoas que leem assiduamente estão, ao menos em princípio, mais protegidas contra a doença de Alzheimer.

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As pessoas que mais leram durante sua vida costumam seguir em duas profissões: artes cênicas (atores e atrizes) ou licenciatura (professores e professoras). O ato de lecionar, normalmente induz o indivíduo a trabalhar constantemente com a cabeça, exercitar a memória e ler muito.

2) Tenha um sono de qualidade

Um dos resultados mais surpreendentes no campo da memorização remete ao fato de que as memórias são consolidadas durante fases muito peculiares do sono. Assim, quando o indivíduo começa a ficar sonolento e inicia o chamado sono de ondas lentas (fase introdutória do sono), existe uma reverberação de tudo o que ocorreu em seu passado recente.

Ao longo da fase na qual o indivíduo realmente está sonhando, há uma singular expressão gênica, a qual se acredita ser responsável por realizar a consolidação das novas memórias junto às anteriores.

A demonstração de que existe um processo em que o sono faz parte do processo de acumulação ou renovação de memórias é uma descoberta extraordinária, e explica a importância de se manter um determinado número de horas de sono por dia. Assim, o sono é fundamental na renovação do arcabouço mnemônico do indivíduo.

3) Pratique exercícios físicos regularmente

Em um estudo realizado na Universidade da Califórnia, um grupo de cientistas conseguiu ampliar a capacidade de memorização dos voluntários ao colocar a mão deles em um balde com gelo minutos depois de visualizarem algumas imagens que precisavam decorar. Atualmente, sabe-se que é possível conseguir o mesmo pico de adrenalina ao praticar um pouco de exercício físico após estudar.

A idade e o esquecimento

Em 2008, foi descoberto que, após ultrapassarmos os 40 anos, conservamos nossas memórias por um período inferior de dias do que quando éramos mais jovens.

Para chegar a essa constatação, foram feitos dois tipos de testes. No primeiro, pesquisadores selecionaram voluntários que haviam assistido a um filme dois ou três dias atrás e deveriam informar os nomes dos protagonistas ou coadjuvantes. Todos os indivíduos com idade inferior a 40 anos se lembraram dos nomes. Já a taxa de esquecimento para indivíduos com idade superior a 40 anos foi maior.

Velho só conta o que foi

Moça só fala em namoro, velho só conta o que foi.

Trecho da canção “Vai de Roda”, de Cezar e Paulinho.

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As pessoas priorizam memórias associadas a uma época na qual realizavam suas atividades com mais facilidade. Assim, normalmente os idosos preferem se lembrar da época na qual tinham momentos felizes, já que o tempo presente pode envolver um grau de tristeza, quase sempre marcado por perdas. Apesar disso, os idosos também guardam memórias tristes, e frequentemente conversam sobre amigos ou conhecidos que perderam.

Benefícios do esquecimento

Esquecer-se de um filme visto há poucos dias não é algo que mereça grande destaque. Aliás, olhando por outro ponto de ponta vista, essa característica pode ser até mesmo benéfica. Imagine que, por exemplo, o presidente do Brasil vá se encontrar com o presidente da França, nesse caso, é importante que o primeiro se lembre de aspectos realmente importantes que devam ser tratados nesse encontro, e não de um filme visto recentemente. Portanto, pode ser interessante descartar memórias irrelevantes, pois à medida que o tempo passa, elas deixam de ter validade e importância.

Indo na contramão do esquecimento, existem pessoas que não se esquecem de nada do que viram, como o jornalista russo Solomon Shereshevsky. Ele conseguia, por exemplo, decorar listas contendo de 70 a 100 palavras depois de lê-las uma única vez, ou lembrar-se da roupa usada em qualquer dia de sua vida.

Por outro lado, Shereshevsky apresentava dificuldades em reconhecer pessoas, pois ele se lembrava do rosto delas do modo como as conheceu, e não como elas envelheciam. Além disso, ele era incapaz de esquecer eventos ruins. O hábito de esquecer é parte do processo de aprendizagem, sendo fundamental para a manutenção exclusiva de associações que voltam a ser requisitadas ou que contenham algum valor para o indivíduo.

Como tratar a dificuldade de memorização

Uma das formas consiste no tratamento envolvendo o uso de fármacos que amenizam a depressão e a ansiedade, o mesmo vale para pessoas que possuem déficit de atenção, sobretudo crianças. Caso elas sejam tratadas com fármacos especificamente voltados ao déficit de atenção, elas tendem a melhorar também sua capacidade de memorização.

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