Neuroplasticidade: Como Nosso Cérebro Muda – Guia Definitivo

Plasticidade cerebral: a capacidade de modificação de nosso cérebro

Evolução limitada ao crescimento

Na época de Cristo, o romano Sêneca propôs que o embrião humano era um adulto em miniatura e que seu desenvolvimento se limitaria ao crescimento. Logo, o feto era um ser adulto que precisa somente ser nutrido. O processo de evolução se limitava ao ato de crescer. Portanto, tratava-se de algo muito simples: proteger, alimentar e instruir aquele ser pequeno. Com o passar do tempo, esse ser de autonomia primária, rudimentar e altamente independente iria se desenvolver, tornando-se um adulto.



Essa visão simplista predominou durante muitos séculos. Até algumas décadas, tinha-se essa mesma noção com relação ao sistema nervoso, assim, ele se desenvolveria durante a vida fetal e atingiria a maturidade alguns anos após o nascimento. A partir daí, haveria um processo de deterioração e envelhecimento natural, com poucas possibilidades de se modificar ou rearranjar a estrutura cerebral, responsável por controlar todo o corpo do ponto de vista imunológico, motor e sensorial.

Em uma famosa canção gravada por Dorival Caymmi estão os versos:

“Eu nasci assim, eu cresci assim,

Eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim… Gabriela”

Algumas décadas atrás a ciência ratificava os dizeres desse verso, e afirmava que as primeiras experiências vivenciadas pelo ser humano dentro do útero, forjavam sua personalidade e caráter. A partir de então, ele seria “prisioneiro” dessa condição, sem a possibilidade de mudar.

Assim, a capacidade humana de modificar a estrutura e o funcionamento do cérebro era algo impensável e considerado anticientífico. Desse modo, por exemplo, pessoas egoístas, dependentes químicos, e indivíduos depressivos não poderiam melhorar nunca.

Determinismo genético

Até alguns anos atrás, havia uma visão cristalizada nas ciências biomédicas: o determinismo genético. Há componentes genéticos que favorecem a dependência química, assim como aqueles que favorecem transtornos de humor ou ansiedade. Na época, achava-se que cada indivíduo seria prisioneiro de sua própria genética.

Epigenética x mutação

Antigamente, acreditava-se que, para mudar o material genético, eram necessárias as ocorrências de mutações. Cada mutação é caracterizada por uma mudança estrutural na molécula química chamada DNA. Não importa a forma como esse processo tenha acontecido, seja por meio de um agente viral, exposição à radiação ou outras substâncias químicas. Uma vez alterado, esse material genético passa a expressar reações diferentes. Embora eventualmente as mutações possam criar fatores protetores e benéficos, a imensa maioria delas é prejudicial e pode ocasionar doenças. Portanto, a mutação é uma forma de mudar o material genético.

Há um campo novo dentro da genética chamado epigenética, que prega que, as pessoas recebem uma bagagem genética resultante da junção de dois gametas, cedidos pelos genitores, e ao longo da vida, esse material genético sofre uma série de influências ambientais.

Desse modo, a epigenética demonstra que é possível modificar a expressão do material genético por meio de uma série de estímulos ambientais, muitos dos quais estão sob o controle do indivíduo, como a escolha dos alimentos a se consumir, grau de espiritualidade e estilo de vida. Por exemplo, a opção pela prática de exercícios físicos ou sedentarismo muda o modo como o cérebro e os genes funcionam e, portanto, afeta também o funcionamento de nossas células, órgãos, hormônios, e nossa capacidade de se organizar, defender-se e se relacionar com o mundo.

Fatos inquestionáveis na neurociência

Atualmente há dois fatos inquestionáveis na neurociência. Primeiramente, o ser humano utiliza muito pouco das suas potencialidades, seja sua inteligência, capacidade de amar, gerar felicidade, entre outras. O outro fato irrefutável na área é que nosso cérebro muda a cada minuto. Antes acreditava-se que essas mudanças no tecido cerebral só aconteciam quando o indivíduo era muito jovem. Na verdade, ao ser estimulado, o cérebro pode ser modificado em qualquer idade.


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Influência da prática de exercícios físicos sobre o cérebro

Imediatamente após a prática de uma atividade física, a expressão do cérebro passa por uma mudança favorável. Além de prevenir as doenças cardiovasculares, a atividade física regular desacelera o envelhecimento celular, diminui o risco de Alzheimer e de outras doenças degenerativas. O exercício físico muda expressão dos genes, fazendo com que as células manifestem suas melhores características. Com isso, obtém-se um aumento da capacidade de regeneração dos tecidos e do potencial intelectual. Assim, como as inteligências múltiplas são interconectadas, quem se exercita, tende a melhorar seu aprendizado na matemática, biologia, sociologia etc.

Exposição a estímulos e desenvolvimento cerebral

Da mesma, o estudo e a exposição a estímulos e desafios podem causar grandes transformações. Assim, as pessoas podem passar de ignorantes a poliglotas, desde que desenvolvam uma grande área do sistema nervoso relacionada à linguagem, a qual está localizada no hemisfério esquerdo na maioria das pessoas.

Orar e meditar mudam o cérebro

O ato de orar também muda o cérebro, pois altera a expressão dos genes. Meditar melhora a essência e as ações do indivíduo, aumentando seu potencial de crescimento e renovação.

Influência da música sobre o cérebro

Já está comprovado que a música aumenta a neuroplasticidade, além de ampliar a produção de fatores promotores da saúde neuronal.

Odores mudam o cérebro

Os odores inalados também mudam o cérebro, seja para melhor ou pior. Existem os extremos. Assim, os perfumes podem ser uma intensa fonte de prazer. O mesmo se aplica ao cheiro da pessoa amada ou da saúde, já que normalmente doenças trazem consigo odores desagradáveis.

Somos o que comemos

Os alimentos que comemos alteram nossa estrutura cerebral. O ato de comer não se resume à introdução de carboidrato, proteína, gordura, sais minerais e micronutrientes dentro do corpo. A ciência tem comprovado que, por exemplo, uma dieta rica em gordura saturada, modifica a composição dos micro-organismos presentes no intestino e que compõem a chamada flora intestinal. Isso faz com que se desenvolvam bactérias no intestino que, quando em alto número, começam a produzir substâncias lesivas ao corpo, além de fatores pró-inflamatórios que se deslocam para a corrente sanguínea e aumentam o risco do desenvolvimento de diabetes, síndrome metabólica, doenças reumáticas, e doenças inflamatórias do tubo digestivo.

Logo, cinco dias ingerindo um alto teor de gordura mudam completamente a flora intestinal do indivíduo e a maneira dele se relacionar com esse grande número de seres vivos que são abrigados pelo corpo e que impactam sua fisiologia. Segundo um relatório da FAO, uma divisão da OMS relacionada à nutrição, nas sociedades que consomem mais peixes, há uma incidência menor de transtornos depressivos. Talvez, esse resultado esteja relacionado ao alto teor de ômega-3, que influencia a fisiologia cerebral e diversos outros aspectos fisiológicos.

Períodos críticos de desenvolvimento

A embriologia tem demonstrado que há fases críticas no desenvolvimento do sistema nervoso, por exemplo, nos primeiros anos de vida, a retina (que corresponde à parte nervosa do olho) e toda a via ótica precisam de luz e imagem para que consigam se desenvolver.

Quando uma criança nasce com catarata congênita (opacificação congênita da lente do olho), e não recebe as imagens com precisão, toda sua via nervosa não se desenvolve, inclusive o córtex visual (localizado no lobo occipital). Então, se essa lente opacificada não for removida durante os primeiros meses de vida, postergando o procedimento para depois de dois ou três anos, essa criança não irá maturar toda sua via ótica e terá uma perda significativa da acuidade visual, que não melhorará com o uso de lentes ou óculos. Isso demonstra que os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da visão e uma série de outras funções. Daí a importância do “teste do olhinho”.

As pessoas que desenvolveram a perda de visão chamada ambliopia, conseguem recuperá-la em grande parte por meio de estímulos apropriados. O vídeo game tem sido usado como recurso terapêutico para recuperar pessoas diagnosticadas com ambliopia. A experiência tem demonstrado que o cérebro se reorganiza, e desde que ele receba estímulos adequados há várias regiões cerebrais que podem produzir novos neurônios.

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